Para nascer sofre a mãe, para viver sofrem os outros, para morrer sofre o pobre e inocente bichinho
Carreta de lá, ônibus de cá
Biiiiiiii...
Escapou por pouco.
Moto de cá, caminhão de lá.
Tem gente que é covarde, não buzina não.
E já viu, atropelamento de cachorro sempre termina em tripas no chão.
Daí chega o fantasma e a vida definha.
A menina de coragem que catava pedras e enfrentava o cachorro,
A menina medrosa que agarrava a mão do camarada que vai do lado,
Agora viram o rosto, tampam o nariz para não ver o fantasma,
Fantasma de cachorro morto em beira de BR se vê com o nariz, se não.
E perambula,
E ameaça derrubar gente das bicicletas,
E desvia,
Desvia rodas,
Desvia pés,
Desvia olhares,
Narizes,
Bocas,
Fantasma de cachorro morto em beira de BR é grande desviador.
Mas não dura e desaparece aos nossos narizes...
E isso é o mais triste: para nós, vida de cachorro morto em beira de BR só é mais longa que a daqueles insetos que só vivem um dia (e eu acredito).
Logo alguém bota fogo no fantasma, se não.
Ou joga na ribanceira a carcaça.
Mas o fantasma fica, se não, ao menos uns pedacinhos voando no ar.
Sorte ou não,
Deus não deixa a gente ver os restos de fantasma de cachorro morto em beira de BR.
Só se vê quando a gente cai na BR.
Daí o fantasma entra na pele da gente.
Será que existe algo mais eterno do que a vida de cachorro morto em beira de BR?
A eternidade não é tão boa assim.
Não se deixa ver, faz a gente pensar que a eternidade acabou.