A gente fala, a gente escreve, mas e quando a gente erra?
Cristiano Matos Publicado em : 15/03/10 17:32
Temos insistido que a fala dá mobilidade à língua. De tempos em tempos nas diferentes regiões a língua evolui, inventa novas fórmulas, volta às antigas, se “adapta” ao modo como seus falantes a usa.
Temos insistido também que não se pode falar de erro em língua, mas de variações que se tornam marcas identitárias de diferentes grupos. Apesar disso há a cacofonia – sons feios ou estranhos que confundem os significados possíveis de uma frase e atrapalham a boa comunicação. Cada grupo social tem palavras ou expressões que têm seus sentidos deslocados. São as metáforas que são a base de uma comunidade linguística.
Em Pontes e Lacerda, por exemplo, na Vila Guaporé e nas suas proximidades, há alguns anos corria a expressão “já é” para informar a amigos que tal garoto já havia beijado certa garota. A menina passava e o menino comunicava aos demais: “Essa já é”. Em outro grupo essa expressão poderia ter outros significados ou até mesmo ser ininteligível, mas dentro desse grupo, a sentença “já é” era perfeitamente compreensível.
Independente da questão de certo ou errado, “já é” jamais poderia ser usada por um grupo que desconhecesse o significado da expressão. Até que desviamos um pouquinho do conceito de cacofonia, (Manoel de Barros brinca que “bugre sempre toma desvio nunca anda pela estrada principal) mas fomos por um desvio proveitoso.
Escrever numa faixa “Feliz dias das mães!” não é propriamente erro, pois a frase continua com um significado. Mas passa a ter sentido confuso, há um ou mais dia das mães no ano. É obvio que não havia, para o escritor da frase, dúvida sobre quantos dias das mães há no ano. Provavelmente o uso de “dias” no plural vem pela sequência de sons “feliz”, “das”, “mães”. Temos uma cacofonia.
Assim, ainda que a comunicação não seja de todo prejudicada, é importante se atentar às cacofonias. É comum o uso do pronome “a gente” no lugar do “nós”. Essa mudança acarreta em alterações significativas na estrutura da língua. Mas acontece um fato curioso: de um modo geral se usa o pronome “nós” (1ª pessoa do plural) com uma forma verbal no singular: “nós fala”, “nós anda”, “nós compra”... mas quando se usa o “a gente” se coloca a forma verbal no plural: “a gente falamos”, “a gente andamos”, “a gente compramos”.
Acontece que o falante pensa: se “nós” já indica plural para que o verbo precisa indicar também? E há os casos em que o uso do “nós” é usado por um único indíviduo sem ter referente no plural. Mas “a gente” não indica plural, por isso o falante flexiona o verbo para mostrar que mais de uma pessoa cometeu a ação.
Para o falante uma indicação de plural basta por frase. Mas para a língua padrão o verbo precisa concordar com o sujeito. “A gente”, embora indique plural permanece na forma singular e o verbo não precisa se flexionar para o plural. Já o “nós” exige o uso de formas flexionadas do verbo: “nós falamos”, “nós andamos”, “nós compramos”...
Então cuidado! Você até pode usar o “a gente” em suas conversas formais, mas se atente para não colocar o verbo no plural. Nesses casos é o contexto e a regularidade de uso que indica o número (singular ou plural).